Lisboa capital da Concertina - 4º Encontro na Casa dos Arcos
Por Rita Cerqueira
Há uns anos atrás a Casa do Concelho de Arcos de Valdevez apostou num novo projecto, procurou relembrar e homenagear a concertina, instrumento este bem antigo e que recentemente passou a ter um grande reconhecimento nacional e internacional. A concertina é hoje, o que nunca passou, talvez, pela cabeça dos grandes mestres que pudesse vir a ser, é sem duvida objecto de recolha intensiva e é explorada até ao limite. Cada vez mais deixou de ser um instrumento tocado apenas pelas pessoas mais velhas e deixou também de ser, na sua maioria, exclusivamente masculino, hoje é tocada por rapazes e raparigas jovens e até crianças.
Tudo isto faz dela, actualmente, um dos instrumentos mais tocados, procurados e divulgados nas comunidades de emigrantes.
Os viras, as canas-verdes, as chulas e os fandangos foram sempre possíveis ser tocados neste instrumento que se assemelha a um acordeão, muitas vezes interpretado como tal, mas agora na concertina tocam-se musicas completamente diferentes do registo a que sempre fomos habituados, tocam-se modas espanholas, francesas e até italianas, ouve-se também no abrir e fechar do fole o hino nacional, um fado tão característico da cidade de Lisboa ou então modas que ouvimos nos tão ansiados bailes de verão das nossas aldeias.
A Internet aproximou muitos tocadores espalhados por este mundo fora, deu oportunidade ao tocador mais tímido de mostrar aquilo que sabe fazer. Ao aceder ao portal mais conhecido de publicação e pesquisa de vídeos e musicas da Internet (www.youtube.com) e ao pesquisarmos através da palavra “concertina” são-nos apresentados cerca de 5 mil vídeos, 72 canais e ainda aproximadamente 2500 listas de reprodução, no entanto, cada lista de reprodução tem em média colocados à disposição dos cibernautas acima de meia centena de vídeos onde o som da concertina impera. Há ainda que ter em conta que existem muitos mais milhares de vídeos ligados a este instrumento mas cujas palavras de pesquisa centram-se em nomes de ranchos ou no nome das músicas.
Em suma, vídeos de concertina estão disponíveis na Internet aos milhões, atrevo-me até a dizer aos biliões. Com isto, basta um simples clic e somos transportados para as grandes romarias do nosso Minho ou para o maior festival folclórico seja ele realizado em qualquer parte do planeta.
Desde o primeiro encontro de concertinas realizado pela Casa dos Arcos passaram alguns anos, o sucesso foi grande mas no ano seguinte não houve ocasião para se repetir a proeza.
Há dois anos a nossa Casa relançou este encontro onde se juntaram tocadores de um pouco por todo o Minho, encontro este que foi incentivado e muito pelo mestre do nosso rancho, Sr. Diamantino Gachineiro. A edição de 2007 à imagem da de 2008 foram um autêntico sucesso, o salão nobre da nossa Casa esteve lotado e ficou no ar a esperança que no ano vindouro se realizaria novamente.
A 25 de Janeiro de
2009, a Casa do Concelho de Arcos de Valdevez abriu novamente portas para ver chegar grandes mestres na arte de tocar concertina. À hora marcada já a sala estava repleta de arcuenses, amigos ou simplesmente curiosos que ao verem a autêntica romaria em direcção à nossa Casa também quiseram espreitar e ver o que se passava. Estas pessoas esperavam ansiosamente para ouvir o belíssimo e típico som da concertina que faz a delícia de qualquer minhoto nos quatro cantos do mundo.
Com o decorrer do encontro foram-se apreciando melodias tocadas, talvez, pelos melhores tocadores do nosso país, nomeadamente o arcuense e amigo José Gomes, filho de Manuel Gomes que também ele já esteve presente na nossa festa. Este foi o segundo ano consecutivo que este amigo nos visita para participar neste encontro, e transcrevendo as suas palavras na fala que antecedeu a sua actuação “fazer 400 mais 400 quilómetros para estar presente nesta festa não custa porque tudo é feito pela paixão à concertina e pela oportunidade de rever grandes amigos”. Tal como o ano passado voltou acompanhado dos seus filhos que seguem exactamente a mesma paixão que o pai. Ouvir este mestre que veio propositadamente de Arcos de Valdevez foi sem duvida um encanto, já tinha-mos conhecido o seu tocar no entanto voltar a ouvi-lo foi qualquer coisa sem explicação, quase que se tem a sensação de choro da concertina e são poucos os que a conhecem como ele.
Os tocadores do nosso rancho, Sr. Diamantino, Filipe e Daniel, também conseguiram uma excelente presença tirando sempre o máximo partido do que a concertina pode dar.
Este ano, tivemos a honra de receber na nossa sede social para participarem neste encontro os tocadores e respectivos corpos directivos da Casa do Minho e das Casas Concelhias de Valença, Paredes de Coura, Ponte de Lima e Arganil. Esta presença vem provar mais uma vez o bom relacionamento que a Casa do Concelho de Arcos de Valdevez tem com as outras instituições sedeadas na capital.
Os outros amigos presentes deram mostras de ser ou vir a ser grandes tocadores, dando provas de que quando se gosta colocamo-nos ao dispor de qualquer coisa em nome dessa paixão, que o diga uma tocadora que veio de propósito da Lousã para participar neste encontro “Fiz esta viagem com muita vontade… Todos os encontros têm animação, mas há aqueles que são mais importantes e este foi sem dúvida um deles, pois não é todos os dias que temos oportunidade para tocar com amigos e ver grandes tocadores mostrarem o que sabem”.
Este encontro foi também a altura escolhida pelos mais novinhos na arte de tocar concertina para se estrearem descrevendo, depois, o momento de forma muito emotiva. Ao ter oportunidade de falar com um destes tocadores ele dizia “A maneira como me iniciei na concertina há 5 meses e hoje estar nesta casa fez-me ficar orgulhoso de mim próprio. Sei que tenho um longo caminho a percorrer e que isto foi o primeiro passo na minha formação como tocador”, e ao ser questionado sobre o que sentiu por ter estado a tocar ao lado de nomes tão conhecidos, ele respondeu “É um incentivo para alcançar tais patamares e talvez, porque não, ultrapassá-los. Foi uma grande honra tocar com grandes nomes da concertina e conseguir acompanhá-los em tão pouco tempo de aprendizagem deu-me ainda mais força para continuar”. Foram apenas dois testemunhos dos cerca de meia centena de tocadores presentes na Casa dos Arcos.
Depois de muitas tocatas, houve também espaço para dançar e cantar sempre ao som deste instrumento. A Casa dos Arcos, no final, ofereceu a todos os presentes um verde honra de Aguiã acompanhado de um petisco confeccionado por algumas senhoras da nossa Casa. A esta altura também se puderam ouvir comentários sobre a tarde que passara, havia quem dissesse que foi dos encontros mais bonitos que tinham assistido, pois sentia-se que aqueles tocadores amam o que fazem e que a medalha que ganharam no final da respectiva prestação não alterava em nada essa paixão e havia quem a descreve-se como “inesquecível, cheia de alegria, animação, amizade, paixão”.
No coração da maioria das pessoas ficou a esperança de no próximo ano estarem presentes novamente na Casa do Concelho de Arcos de Valdevez com a mesma magia a que já fomos habituados.
Esta comemoração terminou já a noite ia longa com uma roda, bem à moda dos Arcos, que envolveu quase todos os presentes.


